Não. Iniciar um negócio de forma experimental não é uma guerra nem um jogo. O mercado não é uma guerra nem um jogo. Uma dança? Talvez. E não pense apenas em valsa, pense também Elvis, Jagger, J Kay. Pense ainda em break, trance e até roda punk. Ou na loira do Tchan, se preferir. Mas não em guerra, é cretinice demais.
Mas ora bolas, fui eu mesmo que fiz você pensar em guerra. Por que? Porque o Saul Singer, co-autor de “The Start-up Nation”, acredita que o treinamento militar dos israelenses colabora para a formação empreendedora deles. Ele explicou.
“Em Israel, o país como um todo é uma startup pois enfrenta uma série de problemas incomuns, incluindo conflitos”. E como isso credencia a fala do autor? É que em Israel a taxa de venture capital por pessoa é 2,5 vezes mais alta que nos Estados Unidos.
“No nosso país, homens necessariamente passam por serviço militar durante 3 anos, e mulheres durante 2 anos. Obviamente ambientes militares são cheios de hierarquia, não do tipo de liberdade criativa que empreendedores gostam. Mas nesse período militar os israelenses aprendem coisas que não aprendem na escola nem no trabalho:
- trabalho em equipe,
- liderança,
- improvisação – nem sempre tudo dá certo e você se vê numa situação em que tem que enfrentar os obstáculos;
- foco em missões - é algo que atletas também tem. A missão deles é vencer”.
Ok, mas não vá pensando que pode fazer guerra ou outro tipo de absurdo absolutista em nome do empreendedorismo! Quando perguntado sobre o que os governos podem fazer para se ter mais e melhores e empreendedores e startups em seus países, Saul deu um sorriso e disse que não há muito o que fazer, apenas sair da frente. “Muitas vezes os governantes querem aplicar verbas e construir coisas, mas isso só faz sentido depois que se tem empreendedores e startups, é isso que justifica o investimento. Em qualquer país, o empreendedorismo é uma exceção. Não adianta sair criando parque tecnológico, empreendedor não gosta disso. Em Israel, o que deu certo foi o governo fazer co-investimento de 50% com os venture capitalists e também as universidades fazerem transferência de tecnologia, vendendo patentes de alto conhecimento aplicado”.
Isso me faz lembrar os comentários dos nossos leitores (inclusive neste post), especialmente agora que o governo federal está prestes a anunciar uma versão inspirada no programa Start-Up Chile. Há um piloto preparado para iniciar em Campinas, mas precisa aguardar o anúncio da própria presidente Dilma.
“Cada país precisa focar nas suas forças, não ficar lamentando. Existem diversos caminhos para a inovação. Israel aprendeu que é bom em fazer startups, não companhias grandes e duradouras, então é isso que Israel faz, mesmo que seja ideal ter os dois tipos. Também acredito que, se é possível combinar pessoas para fazer boas equipes, então também é possível combinar países. Creio que em 15 anos o Vale do Silício não será mais a referência absoluta pois já vemos bastante ‘inovação reversa’, que é a inovação sendo gerada em países que antes eram apenas considerados como mercados consumidores. Prestem atenção na diversidade cultural e nos imigrantes, pois são grupos que já estão acostumados a inovar e a tomar riscos”.













6 comments
Adorei sua introdução! Parabéns! "Mas não em guerra, é cretinice demais." Genial.
Sobre a percepção do Saul Singer já me parece muito uma questão de falsa causalidade. Avaliar o fato depois de ocorrido e buscar uma explicação que encaixe no resultado que já é conhecido. Coisas assim levaram as pessoas a acharem que países de clima quente não poderiam se desenvolver.
Já o co-investimento do Governo com os VCs parece algo bem mais plausível. Agora o treinamento militar? pfff….
entendo sua preocupação com "Avaliar o fato depois de ocorrido e buscar uma explicação que encaixe no resultado que já é conhecido". quem aborda isso muito bem é o livro "Tudo é óbvio – desde que você saiba a resposta correta" (que não tem nada de auto-ajuda, mas critica o senso comum).
o Saul explicou que os países (e pessoas) sempre tem condições de fazer alguma coisa, mesmo que não seja a coisa que os outros se dão bem fazendo.
sobre o treinamento: bem, isso poderia ter vindo dos esportes também. ou do escotismo?
dou crédito a ele pela originalidade e autenticidade.
e você? como treina? o que faz?
abraço
No meu caso foi basicamente muita atividade extra-curricular na faculdade (esportes – jogando e organizando, intercambio, AIESEC, etc). Acho que funcionou…
Não tenho certeza se vocês leram o livro dele, mas se não, acho que vale a pena. Ele busca diversas explicações para o fato de Israel ser uma "Startup Nation" e alguma delas tem a ver com o exercício do serviço militar (vale lembrar que lá o exército é extremamente diferente daqui), alguns pontos que ele fala que podem estimular são:
- Contato com tecnologia de ponto (tudo mundo sabe que grande parte das tecnologias de ponta foram desenvolvidas com fins militares);
- Devido a obrigatoriedade dos serviço militar, você consegue fazer uma mistura bem heterogênea de pessoas com formação, nível social, backgrounds e experiências (multidisciplinaridade e diferentes pontos de vista);
- Desenvolvimento da liderança em situação de extrema incerteza (no exército Israelense o objetivo é mais importante do que a hierarquia, ao contrário de outros exércitos, dessa forma quem está na linha de frente tem a liberdade para tomar a responsabilidade e liderar caso acredite ser necessário);
- Disciplina (não de obedecer, mas de planejar algo e ter a disciplina de executar essa tarefa);
Esse são alguns fatores que ele ressalta no livro e, realmente, acredito que eles podem ter incentivado (obviamente é uma conjunção de fatores).
Vale ressaltar que não sou judeu e apenas estou falando um olhar crítico de quem leu o livro.
De qualquer forma, é um livro interessante para conhecer um país com cultura empreendedora e tentar entender os motivos disso, recomendo.
E é replicável isso no Brasil? Dúvido muito, o nosso ambiente cultural, geográfico e geo-político é muito diferente do de Israel. Mas podemos tentar aprender os motivos do sucesso e tentar encontrar em nosso país pontos que possamos incentivar para alcançar ao objetivo de ser um país empreendedor. =)
ótimo comentário, Thiago!
ganhei o livro, dei uma consulta mas ainda não priorizei a leitura.
abraço
Silicon Valley continuará sendo referência pois o mercado consumidor INTERNO é muito forte, o que é bem inferior no Brasil, Chile ou Israel. Não se trata de infra-estrutura para o empreendedor (o que ajuda bastante, é claro), mas sim da capacidade que o mercado tem de absorver o produto e a possibilidade da empresa criar escala. Nenhum país do mundo consegue fazer isso melhor que os Estados Unidos.
Então (IMHO) acho que essa virada de "15 anos" é totalmente furada. O mercado consumidor vai decidir qual é a próxima SV.
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